sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Em Brugge (Bélgica)

Sétimo dia de viagem: França. Perdão, quero dizer Bélgica. Nesse dia, estavamos com sorte. O céu apresentava-se quase todo azul, esbatido somente por alguns farrapos de nuvens esbranquiçadas, no horizonte. E na rectidão da paisagem, verdejante, apenas apanhamos um aguaceiro durante a toda viagem. É verdade que estivemos lá pouco tempo, contudo Brugge é uma cidade singular e admirável.


Centro histórico

Esta pequena cidade medieval está situada no nordeste da Bélgica, capital da Flandres ocidental,  com pouco mais de 115 mil habitantes.

Antigas fortificações, do século I a.C, constituem as primeiras evidências, de que o local  tenha sido habitada nesse período.

Brugge foi elevada a cidade em 1128. Em 1500, o canal mais importante da cidade, a partir do qual ela prosperou, começou a ficar entupido com lodo e a cidade decaiu como centro económico para a Antuérpia. No século XVII foi local de estadia de Carlos II de Inglaterra e sua corte e no século XIX era o destino turístico favorito de Franceses e Ingleses.

Rivaliza com Amesterdão, ao título "Veneza do Norte", por causa dos seus inúmeros paralelelípedos e românticos canais que atravessam a cidade e rodeiam o centro histórico, Brugge foi também capital Europeia da cultura em 2002.






Muito bem conservada, a cidade apresenta características tradicionais da época medieval, as "casinhas" coloridas, os telhados vermelhos e bicudos, as ruelas estreitas e sinuosas, as antigas torres e a cada esquina, lojinhas de: chocolates, doces, decorações natalícias, objetos de madeira e rendas das Flandres (uma delícia para os sentidos).







Dotada de uma arquitetura invulgar, a começar pelo fantástico centro histórico, que desde 2000, faz parte do património mundial da UNESCO e parece que saiu, diretamente, de um livro de contos de fadas.









Quem quiser pode subir os quase 400 degraus da Torre Halletoren, situada na frente da praça do mercado (o Grote Markt), que apresenta um carrilhão com 47 sinos e de onde se pode ver quase toda a cidade.




 O prédio da câmara municipal é de estilo gótico e o edíficio mais antigo da cidade (XIV-XV).




Mas as outras ruas adjacentes ao centro histórico também são bem interessantes e peculiares (marcas famosas estão bem instaladas nestes lindos e bem conservados edíficios).







A catedral de Sint-Salvator é a principal edíficio religioso da cidade e um dos poucos a não sofrer estragos ao longo do tempo. Data do século X, embora nessa altura só fosse uma pequena igreja e tornada catedral, somente, quatro séculos mais tarde.





Turistas e locais deliciam-se nas ruas com os chocolates (nós devemos ter entrado pelo menos em seis lojas diferentes e comprado quase um quilo), as waffles, as cervejas, as batatas fritas (dizem que estas tiveram a sua origem na Bélgica mas eu achei-as exatamente iguais às de Portugal) e outras comidas fast-food, enquanto alguns utilizam as bicicletas (o meio de transporte predilecto dos locais), outros preferem fazer passeios de charrete ou de barco (um charme).





A cidade é muito bonita, limpa, interessante, cheia de espírito natalício e só tive pena de não a ter visitado em finais de Novembro ou Dezembro, para sentir toda aquela atmosfera cheia de luzes e decorações, bem típica no natal.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Museu do chocolate Michel Cluizel

Cansado de histórias de castelos, palácios, fortificações, catedrais, igrejas e jardins? Se sim, entre agora comigo num mundo de fantasia e doçura (atenção aos elevados níveis calóricos dos mesmos) e sem chuva à mistura (hahaha).

Vamos para o mundo do chocolate, não para a fábrica de Willy Wonka mas para a de Michel Cluizel,  situada em Damville, a 105 km de Paris e a 80 km de Rouen.


Michel Cluizel, um prestigiado chocolateiro Francês, iniciou em 1948 a sua atividade. Os seus chocolates, de excelente qualidade, distinguem-se dos outros pela não adição da lecitina de soja (emulsionante), corantes ou outra gordura vegetal adicionada a não ser a própria manteiga de cacau. Em 1997, apareceu também com um produto único no mercado: 1er cru de plantation, em que cada barra de chocolate contêm cacau de uma plantação específica, sem misturas e por isso considerado de "origem única".

Nesta fábrica de chocolate pode ser visitado o museu, com mais de 500 metros quadrados, dividido em várias salas: a galeria, a cinemateca, a oficina, a cenografia e a loja. Na entrada do mesmo são disponibilizados guias-audio e roteiros em Francês e Inglês.


Na galeria pode-se descobrir a interessante história do cacau e do chocolate, desde a sua origem.


O cacacueiro é uma planta nativa da América central há mais de 2000 anos e só existe em ambientes quentes (mais de 20ºC) e húmidos. Sabe-se que a civilização Maia já utilizava as sementes do cacacueiro para fazer uma bebida amarga chamada xocoatl, que temperada com baunilha e pimenta servia para combater o cansaço além de servir de afrodísiaco. Também os grãos, eram usados como moeda de troca, no comércio local.



Fruto do cacaueiro


Mais tarde, durante os descobrimentos marítimos, também os indígenas das Américas tomavam-no como bebida fria mas sem leite e nem açúcar, paladar esse amargo que não agradou os Europeus,  o que só aconteceu depois com a adição do açúcar de cana.


Durante o transporte marítimo, devido a problemas de conservação começou-se a prensar o produto sobre a forma de tabletes que ao serem consumidas eram previamente derretidas com água.


Cortés foi um dos primeiros exploradores a trazer esse produto para a Espanha, que depois se alastrou aos países vizinhos (apesar de ter ficado em segredo, um século, na Espanha). O produto utilizado como bebida ganhou forte popularidade a par de outras culturas das colónias como o chá e o café. E prosperou ainda mais quando começou a ser transformado sobre a forma de produto sólido doce (tabletes, bombons...). No século XIX apareceu a primeira fábrica de chocolate na Suíça.


Na galeria, também estão exibidos uma série de objetos antigos dedicados ao culto do chocolate, tais como o primeiro torrefator a gás das sementes do cacau da fábrica, refinador, laminador de caramelo e alguns distribuidores de chocolate líquido.



Primeiro torrefator (1950)


Na cinemateca é exibido um filme do cacau utilizado nos produtos da fábrica, desde a sua apanha nos cacaueiros, que podem atingir vários metros de altura. Depois dos frutos serem apanhados, as sementes são retiradas (cada fruto tem entre 20 a 40 sementes) e deverão ser tratadas rapidamente, para não apodrecerem.





Depois da fermentação, que deverá durar alguns dias (de 2 a 8 dias) para intensificar o aroma e o sabor, as sementes são colocadas ao sol e arejadas constantemente para evitar a formação de bolor (entre 4 a 5 dias), antes de serem ensacadas e enviadas para outros países, onde vai ocorrer o restante processamento.


 Após um rigoroso controlo de qualidade do produto, as sementes vão sofrer o processo da torrefação a 130ºC para desenvolver o aroma, sendo arrefecidas rapidamente. Depois de passarem por uma trituração, só a parte da semente limpa é que será aproveitada. Esta semente passa por uma moagem e dá origem a uma massa pastosa.


Massa essa que, depois de prensada e alcalinizada, irá dar origem à manteiga de cacau e à "torta de cacau". Parte desta última dará origem ao chocolate em pó, depois de ser pulverizada, peneirada e misturada com açúcar. A outra parte da "torta" será arrefecida e moldada em tabletes (pasta de cacau), que servirá para fazer o chocolate. A manteiga de cacau é o produto mais nobre e caro, pois não rança devido ao seu elevado teor de gordura e elevado tempo de conservação.


Na produção de chocolate vão ser utilizados a pasta de cacau, açúcar, manteiga de cacau, leite entre outros (em muitos chocolates Michel Cluizel, à excepção do chocolate negro, é utilizada a baunilha). As quantidades e os ingredientes variam de acordo com o tipo de produto e o fabricante.


Composto por cinco etapas: malaxação (mistura e homogenização dos ingredientes), refinação (o produto passa por cilindros de refinação, onde as partículas do açúcar são quebradas; esta etapa determina a textura e a qualidade do chocolate), conchamento (a massa recebe nova adição de manteiga de cacau e é mantida em constante movimento através de agitadores mecânicos), temperagem (permite a estabilidade do chocolate ao passar por várias temperaturas) e modelagem (distribuição em formas e arrefecimento).



Antigo refinador da fábrica  (1948)


Na oficina estão alguns profissionais que desenvolvem e trabalham o chocolate, fazendo os trabalhos mais elaborados e delicados, como estes.





Existe também uma cenografia que representa uma antiga oficina.





Na loja podem ser adquiridos os vários chocolates. Comprei esta pequena caixinha. O preço é astronómico (mais de 60 € por quilo) mas os chocolates são muito, muito bons (nham...nham...).






Embora os produtos da marca sejam muito bons (pelo menos eu achei), ainda existem poucas lojas (Rue Saint Honoré, Paris; 5ª Avenue, New York e algumas que comercializam Michel Cluizel em Inglaterra).

O preço da entrada no museu é de 5€ e inclui no final uma pequena amostra de chocolate. Escolhemos o chocolate de leite, mas o meu marido, não tendo ficado convencido, começou a teimar que o melhor chocolate seria mesmo o Belga ou o Suíço. E como estavamos bem mais longe da Suíça do que da Bélgica (Bruge fica a 320 km de Rouen), deixamos de lado a ida a Étretat, Dieppe e Le Havre e aí fomos nós... para Brugge!


Se consegui ler isto tudo ao fim e adora chocolate, já alguma vez tinha pensado no trabalho necessário para fazer um?

No próximo post não perca a nossa aventura na terra das waffles, das batatas fritas,  da cerveja e obviamente do chocolate!


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Na lar de Monet (Giverny)





O dia chuvoso não nos dissuadiu de visitarmos Giverny para conhecermos o último lar do pintor Oscar-Claude Monet (1840-1926). Este mestre, inovador, revolucionou o mundo da pintura com um novo movimento artístico: o impressionismo, derivado de um quadro seu intitulado "Impressão, nascer do sol" (1872).

As pinceladas soltas associadas à luz e ao movimento são os principais elementos desta técnica. Visto de perto, a tela aparenta ser somente borrões, pois as tintas não são misturadas a fim de obter as cores mas sim feitas pinceladas de cores puras colocadas umas ao pé das outras, que depois são misturadas pelo olho do observador, quando se vê o quadro de longe.

Depois de abandonar o exército, este celébre pintor não se conformava com as antigas pinturas tradicionais e começou a utilizar esta nova técnica. Passados onze anos depois de ter pintado o quadro que deu origem ao movimento, Monet mudou para Giverny onde passou as últimas quatro décadas da sua vida a pintar uma série de quadros com a imagem da catedral de Rouen (uma das mais bonitas do norte da França que irá ser descrita no post sobre Rouen), flores, nenúfares, o lago, a pequena ponte japonesa (conforme se pode ver ao fundo, a verde vivo, na primeira foto) e outros elementos presentes nos jardins de sua casa.








Apesar da polémica e da controvérsia em torno das suas obras iniciais, este novo movimento teve grandes seguidores, tais como Manet, Degas, Renoir...

A 75 km de Paris e a 67 km de Rouen fica Giverny, uma pequena mas bem tratada e florida povoação. O seu atrativo principal é sem dúvida a habitação e os jardins de Monet que cativam meio milhão de visitantes por ano assim como pintores que procuram a luz e o encanto do vale do Sena.

Os seus jardins, cuidadosamente arranjados, são autênticas obras de arte. O primeiro jardim é composto por muitas plantas que florescem ao longo dos vários meses do ano, onde existe também um pomar e uma horta. Como adoro flores, fiquei completamente encantada com o local.










No segundo jardim (e para mim o mais admirável), designado como "Le jardin d'eau", existe o grande lago onde estão dois pequenos barcos de madeira, a ponte japonesa, alguns bancos e grandes árvores onde nos podemos abrigar do sol e da chuva (que foi o nosso caso).










Na sua habitação, típica casa de campo, podem ser vistas a sala de leitura, a despensa, o estúdio de trabalho (embora a maior parte das suas obras tenham sido feitas ao ar livre), a rústica cozinha com objectos de cobre e bonitos azulejos azuis de Rouen, a casa de banho, a sala de costura e a requintada sala de jantar com móveis amarelo forte bem originais e diferentes na época, assim como vários quadros espalhados nas paredes. Infelizmente, não se poderam tirar fotos do seu interior.



Fachada da casa


Vista parcial do jardim (1º andar da casa)


A três quilometros de Giverny fica Vernon (de Paris, pode-se ir até ali de comboio e depois junto à estação apanhar o autocarro para Giverny) onde não resistimos a tirar estas fotos da câmara municipal e da bonita igreja do século XVII, antes do almoço.







Obras de Monet podem ser admiradas no museu de Vernon, em Paris (museu Marmottan-Monet, museu d'Orsay, museu de l'Orangerie) e em muitos outros museus no mundo . Em Portugal, podemos ver alguns quadros deste pintor no museu Calouste Gulbenkian, como esta rara natureza morta.


Nature morte avec melon (Monet, 1872)



No próximo post...a não perder...a razão, porque mudamos de planos e do norte da França fomos para Brugge, na Bélgica! Fique para ver!