sábado, 3 de dezembro de 2011

Tenerife I: "a Ilha da eterna Primavera"

Outros destinos mais paradisíacos podiam ter sido escolhidos para esta viagem de férias ao estrangeiro mas a caducidade do passaporte, o número de horas de voo (nem quero imaginar o horror em passar uma noite inteira, outra vez, no voo de regresso) e os poucos € disponíveis, aliados ao clima invernal dos países da Europa só nos fizeram decidir a viagem para um local menos frio do que a restante Europa, com poucas horas de voo e bem mais económico: as Canárias, em particular a maior (tanto em altura como em extensão) ilha das Canárias: Tenerife, considerada "a ilha da eterna Primavera", situada em pleno Oceano Atlântico, apenas a 300 km da costa Africana!







Mas claro que uma viagem não poderia ser "boa" sem ter uma boa dose de stress inicial, porque senão é a gripe das aves ou a gripe A ou as cinzas da nuvem vulcânica ou o peso/medidas em excesso das malas (por causa de ser em low-cost)... desta vez foram as dúvidas ao comprar a viagem a Tenerife, por causa da recente actividade vulcânica de uma das ilhas vizinhas (El Hierro) e depois no próprio dia do voo foi a (ex) greve dos funcionários do aeroporto e da própria companhia aérea (que soubemos dois dias antes). Mas tudo correu bem e o voo saiu à hora prevista sem sobressaltos!

O pacote turístico foi comprado na Travelplan numa agência de viagens (agradeço desde já à Geostar da Guia, EasyGo de Lagoa, Abreu da Guia e Best Travel de Portimão) constituído pelos voos da Air Europa (uma low-cost Espanhola) a partir de Sevilha (o carro ficou estacionado no aeroporto) e transferes a partir do aeroporto de Los Rodeos (norte de Tenerife) até ao hotel Paradise Park, onde ficamos alojados em regime de meia pensão (pequeno almoço e jantar). O passeio de barco (no último dia) e a entrada do Loro Parque também foram comprados à Travelplan!





Esta ilha foi anteriormente habitada até ao século XV pelos Guanches, provavelmente imigrantes do norte de África, até terem sido conquistados pelos Espanhóis em 1493, numa expedição constituída por 1000 soldados e 150 cavaleiros cujo objectivo era conquistar a última das setes ilhas das Canárias (as outras já tinham sido conquistadas em 1402)!


Pintura retratando os "Guanches" (Museu das Pirâmides de Güímar)


Tenerife é visitada por mais 5 milhões de turistas ao ano, o que a torna a mais visitada de todas as ilhas nas Canárias. Dotada de uma grande variedade de paisagens e micro climas, é possível admirar a neve no topo do vulcão Teide enquanto nos deleitamos a tomar banhos de sol e/ou de mar nas praias, ao lado.


Exemplo de paisagem (o Teide, ao fundo)


A flora é variada, com mais de 1700 plantas sendo 500 endémicas (originárias da região). A fauna também é peculiar com uma grande variedade de répteis, aves e de mamíferos marinhos que podem ser admirados no seu habitat natural (como golfinhos e baleias). Devido às condições atmosféricas, os observatórios astrofísicos têm um papel importante na observação dos céus e no estudo do Big Bang (como o observatório de Izaña, cuja entrada não é permitida). A gastronomia é variada, devido às influências da cultura Africana, Latino-Americana e Espanhola, juntamente com as criações da própria ilha, sendo rica em queijo, pescado, banana, batata (como as famosas batatas cozidas com pele ou "papa arrugá")  e vinhos.

O artesanato (rico em bordados manuais), a arquitectura (as casas típicas com varandas em madeira), as romarias e o famoso Carnaval (crê-se que seja um dos melhores na Europa) além da compra de artigos com baixos impostos  (Puerto de La Cruz é porto franco  desde o século XIX) também fazem parte dos encantos desta ilha.


E no final da semana, o nosso  Castelhano tinha  melhorado consideravelmente:   "Vale?!"  


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Palácio Nacional da Ajuda

Quem olhar  para a fachada traseira deste  edificio  inacabado, de  estilo neoclássico,  ninguém  poderá imaginar as riquezas albergadas no seu interior, de um dos palácios mais bonitos em Portugal que vi até hoje.

Devido ao terramoto de 1755, o rei D. José I ordenou a construção de um palácio (o último a ser construído em Portugal) num local considerado "seguro", no alto da Ajuda. Livre de sismos mas não do fogo foi aqui construído um antigo palacete, feito em madeira, onde a familia real viveu durante três décadas. Depois deste ter sido destruído por um violento incêndio foi construído o actual palácio, iniciado em 1802, que deveria ser grandioso mas devido às várias interrupções e alterações ficou apenas com um terço do projecto inicial.

Devido às invasões Francesas, o palácio só seria habitado posteriormente. De 1826-28 foi habitado pela regente D. Isabel Maria e em 1862 por D. Luís I e sua esposa D. Maria Pia de Sabóia que o tornaram residência permanente. Também foi aqui neste palácio que D. Miguel foi aclamado rei absoluto e D. Pedro IV jurou a carta constitucional na sala do trono.


Fachada traseira, dianteira e uma das esculturas à entrada do palácio


Declarado monumento nacional desde a implementação da república (1910) foi encerrado e reaberto como museu algumas décadas depois. Actualmente, além de servir de museu e ser uma antiga habitação real é também sede de instituições ligadas à cultura (como o Ministério da Cultura) e palco de cerimónias oficiais do estado.
Podem ser visitados dois pisos, no interior da maior parte do palácio (nas alas nascente e sul), aberto ao público: o térreo ondem podem ser admirados 20 aposentos privados reais e o andar nobre composto por 17 salas onde se realizavam as grandes recepções da realeza.

No piso térreo é obrigatório a visita à Sala do Despacho (onde o Rei recebia os seus súbditos e tratava de documentos oficiais) não sem antes passar pela Sala Grande de Espera (o tecto é lindissimo), à Sala da Música (uma das distracções favoritas da família real), à Sala de Estar, ao Jardim de Inverno (aposento privado com o tecto e as paredes revestidas de ágata da Caledónia), ao Quarto da Rainha, à Sala de Retrato do Rei D. Carlos (as paredes necessitam de restauro), à Sala das Tapeçarias Espanholas, à Sala Rosa (bem feminina, com peças de porcelana, apreciadas essencialmente no século XIX, vindas da região Alemã de Meissen) e à Sala Verde (onde nasceu o rei D. Carlos).

Pormenores da sala grande de espera
Em cima: sala do despacho
Em baixo: sala da música
Em cima: sala de estar
Em baixo: jardim de Inverno
Pormenores do quarto do Rei


Esquerda: sala rosa. Direita: quarto da Rainha


No andar nobre devem ser admiradas as salas: do trono, de baile, do corpo diplomático e o atelier de pintura do rei além da majestosa e faustosa sala de jantar.


Pormenores da sala do trono e escultura da sala de jantar

Pormenores da sala de jantar


As várias e lindas colecções de arte: escultura, joalharia, ouriversaria, pintura, têxteis, trajes, mobiliário, vidro, utensílios e fotografia, presentes em ambos os pisos, são marcas dos últimos vestígios deixados pela realeza nos últimos cinco séculos, em Portugal.


Quadros e fotos dos vários monarcas
Portugueses


Depois demos um belo passeio pelo Jardim Botânico da Ajuda, situado próximo ao palácio. Fundado em 1768, pelo Marquês de Pombal, é considerado o jardim mais antigo de Lisboa e destinava-se a local de recreio da familia Real, com inúmeras espécies vegetais de todo o mundo.  Em 1918, este jardim foi entregue ao Instituto Superior de Agronomia. O ciclone ocorrido em 1941 veio devolver a linda vista sobre o Rio Tejo, devido à destruição de uma grande parte do bosque formado no século anterior.




Horário (Inverno) e preço (adulto):

Palácio Nacional da Ajuda- das 10 às 17.30H; 5€ mas gratuito aos Domingos de manhã.
Jardim Botânico da Ajuda- das 09 às 18.00H; 2€ durante a semana e 1,5€ ao fim de semana.



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Visita à Casa Museu José Maria da Fonseca (Vinhos de Setúbal)

Conforme falado no post anterior, na viagem à margem sul, o ponto alto foi mesmo a visita à Casa Museu José Maria da Fonseca. Situada em Vila Nogueira de Azeitão, zona de bons vinhos ou não estariamos nós numa região vinícola demarcada por excelência, em particular o famoso vinho dourado, com sabor delicado e perfume suave designado por "moscatel".

 A qualidade do vinho está fortemente influenciada com a qualidade da uva e esta está dependente directamente do clima e do solo utilizado. Na região de Setúbal, se por um lado existem terrenos argilosos e calcários nas montanhas da Árrabida por outro temos numerosas planícies, que aliados a um clima caracterizado por poucas oscilações de temperatura e baixa pluviosidade, pela sua proximidade marítima, garantem assim o crescimento e a fácil manutenção dos vinhedos.


Fachada exterior da casa museu

Aqui, foi possível ver a antiga casa de família de José Maria da Fonseca, sendo que actualmente está na sétima geração e esta é a adega mais antiga de toda a região (produzem vinho desde 1834). Esta empresa tem continuado sempre nesta familia, embora o nome seja actualmente Soares Franco (devido a casamentos acabou por mudar).
No primeiro andar está situado o escritório e na parte de baixo as duas adegas visitáveis.

Inicialmente, começamos por ver uma sala museu onde foram dadas algumas explicações sobre a empresa, o seu espaço, um exemplar da primeira máquina de enchimento mecanizado de 1950 (ver foto abaixo à esquerda), vinda da França, que enchia 240 garrafas por hora, um verdadeiro recorde na época, nos anos 70 (actualmente, o enchimento é feito a larga escala e por hora são cheias 30 000 garrafas por hora)!  O vidro vinha da França e Inglaterra. O vinho Periquita (um dos mais famosos) é o dos mais antigos desta empresa e a ser enchido mecanicamente.




Vimos, também, os vários prémios (constituído por várias medalhas e diplomas expostos numa parede, conforme foto acima). Em 1834, José Maria da Fonseca ganhou pela primeira vez um prémio num vinho e pioneiro, na inovação, desenvolveu as vinhas em paralelo, o que permitiu que se pudesse utilizar máquinas entre as parreiras, numa época onde ainda não existiam máquinas para tal. Em 1855, o vinho "moscatel da casa" ganhou pela primeira vez uma medalha, em Paris.

Existem vinhedos no Douro, Alentejo e claro está Setúbal, compreendendo mais de 600 hectares que são utilizados nos vinhos aqui produzidos. Além do consumo interno também são feitas muitas exportações: o famoso "Periquita" para o Brasil, o "Lancers" para a América do Norte e outros para os países nórdicos.

Na primeira adega (Adega da Mata), onde está guardada uma pequena parte da produção do vinho Periquita, cerca de 800.000 litros estão divididos entre 36 tóneis de madeira de mogno (vinda do Brasil e África) e 120 barris de carvalho Francês e Americano. Os tóneis de diferentes capacidades (~20.000 litros) foram todos construídos aqui dentro deste local há 80 anos, à mão, numa madeira resistente e neutra uma vez que não deixa qualquer sabor no vinho. Antes de ser engarrafado, o vinho fica aqui pelo menos 6 meses, sendo utilizada a mistura de 80% vinda dos tóneis com 20% vinda dos barris.
No vinho Periquita são utilizadas três castas diferentes de uvas: o castelão (antigamente, denominada como "Periquita", daí o nome), a trincadeira e o aragonez. Existem vários tipos de vinho Periquita: tinto, branco, rosé e tinto reserva (fica pelo menos oito meses e meio somente em barris de carvalho e as castas são diferentes, pois além da casta castelão leva também as castas: touriga nacional e touriga franca) e Periquita superior (o topo de gama, que leva só a casta castelão).

A outra adega designada como "Teares Velhos" era uma antiga fábrica de têxteis utilizada para fazer o fardamento das tropas Portuguesas e Inglesas durante as invasões Francesas e uma antiga propriedade dos Duques de Aveiro (data de 1750) que em 1820 foi comprada por José Maria da Fonseca, para ampliar as suas instalações.

Aí funciona, actualmente, a adega de vinho moscatel, bem mais escura do que a primeira.  Estão, ali, distribuidos pelos vários e enormes barris, cerca de 400.000 litros de moscatel, com mais de 20 anos.
Os cantos gregorianos invadem o local, uma vez que havia aqui perto um convento (S. Domingos), embora estes não tenham qualquer influência no vinho, propriamente dita.


Barris da adega do vinho Moscatel


Este tipo de vinho é mais doce e fortificado, tal como o vinho do Porto, devido à adição de aguardente vínica que interrompe a fermentação quando esta se inicia, sendo posteriormente colocado em barris de carvalho, onde previamente foi colocado o vinho Periquita durante 5 anos.

Existem vários tipos de moscatel: o novo (fica entre 3 a 5 anos no barril), o velho (fica pelo menos 20 anos no barril) o de Setúbal superior, (é proveniente de vinhos de anos de grande qualidade e que depois ficam armazenados de 30 a 60 anos, tornando-se assim mais escuro, espesso e doce) e o Setúbal roxo (neste é utilizado uma casta específica de uva roxa, mais doce e rara, só desta região e diferente da vulgar uva moscatel cuja coloração se situa entre o branco e o amarelado).

Também está presente no local um poderoso candeeiro com 50 anos que reflecte as iniciais de José Maria da Fonseca, no chão, e uma reserva exclusiva da família cuja entrada está impossibilitada, pois nem a nossa guia tinha as chaves. Conseguimos tirar apenas uma foto a partir de uma pequena abertura da porta daquele cenário fantasmagórico e com valor incalculável, pois contém vinho moscatel de reserva com mais de 100 anos e 80 vintages de vinho moscatel, desde 1900, numa colecção única.


Colecção rara de vinho moscatel

Depois no final fizemos as provas de dois vinhos: o "Periquita reserva de 2008" (que eu não apreciei especialmente),  utilizado no acompanhamento de queijos e carnes e o "Moscatel Alambra de 2007" (delicioso), utilizado à temperatura ambiente para sobremesas ou como fresco para aperitivo. O custo é de 3€ por pessoa pela visita e inclui a degustação de dois vinhos no final (um branco ou tinto e o outro moscatel).

Por fim, provamos as boas e famosas tortas de Azeitão depois de tirarmos algumas fotografias da vila.

Tortas de Azeitão